jump to navigation

A Construção do Mundo 4 Março, 2007

Posted by omagodasorte in Maguices.
5 comments

O Caminho para a Liberdade

Ela caminhava lentamente pela estrada de terra batida. O passo ressoava abafado, levantando um punhado de poeira e sujando os pés, não tão mais sensíveis, não tão mais exatos. O caminhado perdia a rigidez mas, paradoxalmente, ficava mais seguro, como determinasse o próprio rumo.
Nas mãos, um caderno e dois lápis. Segurava-os com uma firmeza diferente, distinta, própria. Cabelos lisos discretos, que pareciam envergonhados por detrás dos ombros. Quem os visse pelas costas, no entanto, repararia nas ondulações que se movimentavam, de cima para baixo, de baixo para cima, harmonicamente, serenamente, exibindo-se para o vento, acompanhando o caminhar da dona, da jovem senhorita que soluçava um leve choro.
O choro não tinha lágrimas, não molhava os olhos. Aqueles olhos que olhavam para dentro, aqueles olhos que refletiam nuvens e miravam em sonhos. O choro não gritava nem gemia. O choro corroía algo que ela não sente, que não se movia e nem desaparecia. Umidecia a faringe e pulmões. No fundo do peito, sentia descer algo salgado que envolvia o coração e o apertava bem forte, forte, forte.

E o valente coração desprendeu-se. Rompeu o que lhe angustiava. Só então as lágrimas voltaram aos olhos, manchando a imagem da estrada, deixando turvo o céu claro, cheio de nuvens e de luz. Muita luz. E tudo se abre, e tudo se vê. O caminho se dividiu. Dois caminhos, duas vidas, dois opostos. E agora?

De volta… 4 Março, 2007

Posted by omagodasorte in Camões, China, Estados Unidos, Instituto Dom Barreto, Piauí, geração Coca-Cola, profetas.
2 comments

Absurdos de hoje em dia (e de muito tempo atrás)
[Aos nobres profetas dos anos 2000]

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, assim Camões começa um de seus mais conhecidos sonetos. Mesmo depois de milênios e milênios de história, a humanidade ainda se espanta ao ver o velho desabar e das cinzas surgir o novo. Fingir que não vê não adianta; tentar correr para trás também não – significa virar refém da própria sombra. Então, sobram duas alternativas: a primeira é adequar-se às novidades, inserir-se no novo tempo; a segunda é ficar maluco e sair por aí gritando aos quatro ventos e para quem é forçado a ouvir (até porque ninguém se dispõe a escutar) uma prosa sobre o que é a mais concreta obsolescência: o futuro. E tem sido essa última alternativa a que muitos por aí têm escolhido. Forma-se um verdadeiro exército de profetas do passado, carregando sob o braço o papiro e levando nas mãos a pena e a tinta para, através de palavras encantadoras e ludibriantes tentar atrair mais e mais recrutas.
“Estados Unidos perdendo espaço para a China? Impossível! Em cinco ou seis anos a economia chinesa vai ser arrasada”.
“A geração ‘Coca-Cola’ no poder? Perda total! Agora é que esse país desanda mesmo. Como uma geração que mal sabe o nome dos que a governam pode pôr o país em ordem?”
“O Piauí com a melhor escola do Brasil? Uma piada! Um estado pobre e atrasado jamais poderia alcançar tal feito”.
Que grandes homens os que falam isso! Não sabem, pobres coitados, que a natureza do mundo é mudar. Permitam-me profetizar: eles serão engolidos pela sede de outras vontades que move essa nova geração. Hoje o mundo todo é quase nada e quase tudo é muito pouco para nós. Queremos sempre saber mais, crescer mais, ser mais e, então, quando conseguimos alguma coisa, aparecem esses aí – que já não detêm a mesma capacidade daqueles que caminharam com o mundo – nos puxando para baixo, para o atraso.
Abramos os nossos olhos e vejamos no futuro a esperança de viver, enfim. Lembremos que os Estados Unidos são grandes responsáveis por tudo o que há de desastre e cólera no mundo; que a geração “Coca-Cola” cresceu vendo suas precedentes estragarem o país e jogá-lo na lama; que durante séculos a educação que resultou nessa quase-nação decadente foi aquela ensinada nos tradicionais santos colégios do Rio de Janeiro e de São Paulo. Por que não dar chance ao que há de vir? Rendam-se. A Terra continua a girar, a vida continua a esperar sua hora. Aprendam com Camões (este, sim, profeta de verdade! Profeta do futuro!), que viveu tão antes de todos vocês, mas parece ter uma mente tão mais centrada no que se seguiria ao seu tempo.Ele, no mesmo poema que citei no início, revela o seguinte: “Do mal ficam as mágoas na lembrança,E do bem, se algum houve, as saudades”.

Energia positiva, ótimas vibrações para todos! A mim, que retornem os e-mails e comentários!

omagodasorte@hotmail.com ©